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Coluna grega

Comércio entre Brasil e China - algumas notas

A viagem do Presidente Luís Inácio Lula da Silva à China parece uma das mais frutíferas e bem sucedidas já realizadas por ele. A ausência de "contenciosos históricos", na feliz expressão de Sua Excelência, o Presidente, tornou certamente mais fácil um entendimento entre as duas grandes nações. O comércio e a diplomacia de ambos os países ganharam muito com essa negociação.

E todos nós, chineses e brasileiros, seremos beneficiados com o incremento das exportações e importações entre duas economias que são complementares. A China precisa de alimentos e nós os produzimos em abundância. A China é detentora de tecnologias bastante sofisticadas na área espacial e em outros setores, que podem ser transferidas ao Brasil. Em conseqüências dessas trocas, devem surgir novos empregos e empresas aqui e lá, além de um grande incremento do turismo. Temos muito a mostrar, mas a China, com sua Grande Muralha e com o Exército de Terracota, seus palácios, suas paisagens, não fica atrás.
Devemos recordar, porém, que as relações entre a China e o Brasil são muito antigas, remontando há séculos. Recapitulemos:

1 - Os portugueses foram os primeiros ocidentais a chegar à China por mar, no século XVI, já que por terra a primazia parece pertencer à família Polo, que andou por lá séculos antes.

2 - Portugal, além de sustentar bispados em Macau, Pequim e Nanquim, mantinha uma embaixada na Corte do Imperador da China. Aliás, o embaixador português na China, ao regressar para Portugal, partiu de Macau em 4 de janeiro de 1754 e passou pelo Rio de Janeiro em 22 de fevereiro de 1755. Quatorze meses de viagem... Não é à toa que as relações comerciais eram escassas! Enquanto isso, nosso Presidente chegou à China em poucas horas, mesmo usando o velho avião presidencial.

3 - Ademais, ainda no século XVII, uma linha de navegação foi estabelecida entre Lisboa e Macau, na China, onde os portugueses haviam sido autorizados a instalar uma feitoria. Esses navios faziam escala no Brasil, e às vezes arribavam em portos não autorizados como Laguna em Santa Catarina. Portugal chegou mesmo a ter uma Companhia da Índia Oriental e China, voltada para esse comércio. Alguns de seus navios são conhecidos:

-"nau que ia para a China" arribou em Laguna no fim do século XVII (Inv & Test.27:422)
- São José - Rei de Portugal, Corsário -fundeou na Bahia em maio de 1756, junto com o corsário Sant'Ana - Rainha de Portugal - ambos pertenciam à Companhia da Índia Oriental e da China - (AMUL, 1:149)
- Neptuno - navio sob comando do capitão Antônio José de Oliveira chegou à Bahia arribado e com avarias -1/7/1755 (AMUL, 2:296) Seu nome completo era Neptuno, Santo Antônio e Almas. Chegou à Bahia em 29/7/1777, sob o comando do mesmo Antônio José de Oliveira, vindo de Lisboa, tendo sofrido avarias durante a viagem ao suportar grande temporal. Tomou grande carga de tabaco na Bahia (AMUL, 2:380/382) deve ser o mesmo que chegou à Bahia em junho de 1781, sob o comando do mestre Joaquim Gonçalves da Silva, vindo de Macau (idem, 488)

4 - Mas outros países, especialmente a Inglaterra, também procuravam comerciar com a China e igualmente seus navios faziam escalas e arribadas no Brasil, tanto na ida como na volta.
Assim, quatro navios ingleses passaram pela Bahia em 1760. Iam para Bombaim, de onde passariam para a China para carregar fazendas para a Europa, por conta da Companhia Oriental de Londres (AMUL, 1:427). Eram eles:

- Neptuno - nau inglesa arribada à Bahia, sob o comando do Capitão João Puling
- Harl Temple - nau inglesa arribada à Bahia, sob o comando do Capitão Guilherme Foster
- York - nau inglesa arribada à Bahia, sob o comando do Capitão Pedro Lascelles
- Egmont - nau inglesa arribada à Bahia, sob o comando do Capitão Carlos Mears
- London - nau inglesa arribada à Bahia

Mas além desse intercâmbio comercial por via marítima, houve passageiros nos dois sentidos. Em 1801, o mercador chinês Alom pedia licença para ir ao reino no comboio que sairia do Rio de Janeiro - 23/4/1800 (Ofícios dos Vice-Reis, 214 - PAN, 1:663 ).

E Pedro Taques menciona uma "Embaixada à China", integrada por portugueses e brasileiros, na virada dos séculos XVII e XVIII (P.TAQUES, Nobiliarquia Paulistana, 2:193).

Mas, o "filé" desta crônica está num texto de Hipólito José da Costa, o jornalista do "Correio Braziliense", periódico editado em Londres entre 1808 e 1823, o qual, no número de setembro de 1813, afirma: "A China não tem comércio externo, e contudo é um próspero, rico e respeitável país. A comparação da China com o Brasil não é descomedida, em ponto de capacidade de terreno, fertilidade do chão, bondade do clima, e facilidade de comunicações internas. Logo, julgamos muito ajuizado imitar no Brasil a política dos chineses."

Hipólito da Costa queria que desenvolvêssemos o mercado interior (abolindo a escravidão que nada consumia, e substituindo-a por homens livres), como a China o fizera milênios antes. Fora esse gigantesco consumo interno que fizera dela um país rico e poderoso. Hoje, a China se abre para o mundo, pronta para comerciar com qualquer nação, pois tem uma vasta produção industrial a exportar e mais de um bilhão de consumidores que precisam ser alimentados e supridos de mercadorias que lá não são produzidas.

Hoje, mais do que imitar a China, nós brasileiros descobrimos que as economias da China e do Brasil são complementares e que um intenso comércio pode se estabelecer facilmente entre os dois países.

Exportar excedentes é um ótimo negócio. Mas, não é conveniente viver apenas de exportações, sem um grande mercado interno que reduza os custos de produção em escala, e seja capaz de assegurar a sobrevivência da economia quando a demanda externa se retrair. Essa é a lição da China de hoje.

Para isso, entretanto, é preciso que um sólido mercado interno seja criado no Brasil, por meio de uma redistribuição de renda que integre economicamente os milhões de brasileiros que estão vivendo abaixo do nível de pobreza absoluta.

Esperemos que nossa Pátria saiba aproveitar esta oportunidade.

1 - AMUL - Eduardo de Castro e Almeida, Inventário dos Documentos Relativos ao Brasil Existentes no Archivo de Marinha e Ultramar de Lisboa, 8 v., Rio de Janeiro, Biblioteca Nacional, 1913-1936.
2 - Ofícios dos Vice-Reis, Arquivo Nacional, Rio de Janeiro
3 - PAN - Publicações do Arquivo Nacional, Rio de Janeiro
4 - Inventários e Testamentos, Departamento do Arquivo do Estado de São Paulo, São Paulo
5 - Pedro Taques de Almeida Paes Leme, Nobiliarquia Paulistana Histórica e Genealógica.

A Receita Federal agradece a sua visita.