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Coluna grega

Relações entre a Índia e o Brasil colonial

Quando o Presidente Luís Inácio Lula da Silva pisar o solo da Índia, estará dando sequência a uma relação política que remonta a cinco séculos de História, pois Pedro Álvares Cabral, ao deixar o Brasil, fizera o mesmo trajeto em 1500. Depois disso, durante três séculos, Brasil, Índia e Portugal andaram de mãos dadas, num intenso e íntimo relacionamento ecônomico, político e social, que deixou marcas profundas nas três nações.

Ao longo das pesquisas feitas para o Projeto Memória da Receita Federal, encontramos e anotamos numerosos dados sobre esse tema, que tinha reflexos acentuados na vida dos órgãos aduaneiros de nosso país, e que nos parece conveniente recordar nesta oportunidade.

Após as viagens de Vasco da Gama e de Cabral, Portugal estabeleceu diversas feitorias comerciais na Índia, dando origem a pequenos núcleos coloniais, dos quais subsistiram até o século XX os de Goa, Damão e Diu. Aliás, a ação lusitana também se estendeu durante as "grandes navegações" ao longo de toda a costa do Malabar, no Ceilão, em Timor, Macau e outros pontos do Sudeste Asiático. Para manter contato entre a Metrópole e esses lugares, foi criada uma linha permanente de navegação com as chamadas "naus da Índia", que faziam escala no Brasil, onde se reabasteciam e se refaziam da longa jornada.

Aos poucos, essa linha de navegação foi estabelecendo laços cada vez mais estreitos entre a economia brasileira e as feitorias asiáticas, especialmente as do subcontinente indiano. Mercadorias sofisticadas como a célebre "louça da Índia", especiarias como o cravo, a pimenta e a canela, obras de artesanato, espécies vegetais, como a mangueira e o bambu, além de inumeráveis outros objetos, foram trazidos da Índia para o Brasil. Em compensação, as naves portuguesas daqui saiam para lá carregadas com produtos brasileiros, especialmente feijão, carne seca, farinha, tabaco, amarras e peças para navios.

Por outro lado, era relativamente comum que militares e burocratas brasileiros fossem servir na Índia e vice-versa. Mas também se trocavam degredados, que haviam se tornado inconvenientes num e noutro lado do planeta...

Mais significativo, porém, foram grupos de assistência técnica que a Índia forneceu ao Brasil em pelo menos duas ocasiões. Segundo os Documentos Históricos da Biblioteca Nacional, vol. 89:174, em 1690 técnicos indianos vieram ao Brasil para assessorar no cultivo da canela. E, em junho de 1751, "canarins", moradores de Goa, vieram ao Brasil, trazidos pela expedição Naubandel, "afim de aperfeiçoar e desenvolver a cultura das palmeiras". Pretendia-se produzir no Brasil um licor denominado "Urraque" ou "Urraca", extraído das palmeiras, mas as nossas espécies não se prestavam a isso. Dois dos técnicos faleceram aqui e os demais retornaram à Índia em 1753, (Inventário dos Documentos Relativos ao Brasil Existentes no Archivo de Marinha e Ultramar de Lisboa, organizado por Eduardo de Castro e Almeida, 1:10, 12, 17 e 46)

Em troca, mandamos "a Senhora do Pangim"... D. Maria Úrsula de Abreu e Lencastre, jovem e bela moça, de ilustre família carioca (descendente da Casa Real de Lancaster, da Inglaterra, que derrotada na Guerra das Duas Rosas, refugiou-se em Portugal no século XV, e de lá passou ao Brasil, onde deu origem às famílias Lencastre e Alencastro), que, disfarçada de homem, com o nome de Baltasar do Couto Cardoso, sentou praça no exército português e foi mandada servir na guarnição da Índia Portuguesa. Lá o soldado Baltasar do Couto Cardoso fez prodígios de bravura, defendendo e atacando fortalezas em condições heróicas, com o que adquiriu grande reputação militar. Por isso, foi enorme a surpresa da guarnição portuguesa, quando se anunciou o casamento do soldado Cardoso com o comandante do forte... A História não conta detalhes desse romance, mas deve ter sido um choque tremendo para a soldadesca lusa... (Brasília, revista da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1:179 e 2:405)

Mais tarde, D. Maria Úrsula, em reconhecimento de seus méritos militares, teria sido agraciada por D. João V com o comando da Fortaleza de Pangim em Goa. Não sabemos como terá reagido o marido...

Enfim, são coisas do amor e nós estávamos aqui para discutir graves assuntos econômicos. Mas é um pouco tarde para voltar a eles. Fica para uma próxima vez.

A Receita Federal agradece a sua visita.